Olá amigos.

É inevitável: a temporada se aproxima do final e o tema mais frequente nas conversas entre os fãs da F1 é quem deverá dispor de alguma vantagem técnica nas cinco etapas restantes, a começar pelo GP do fim de semana, no México: o líder do mundial, Max Verstappen, da Red Bull-Honda, ou Lewis Hamilton, da Mercedes, segundo colocado, 12 pontos atrás, 287,5 a 275,5.

Os interessados comentam sobre o momento mágico desses dois pilotos geniais, as características dos circuitos que estão por vir, o potencial demonstrado pelos modelos RB16B-Honda de Max e o W12 de Hamilton em traçados semelhantes, mas quando começam projetar as corridas reduzem a velocidade da fala.

Se dão conta do aspecto mais saudável deste campeonato épico, algo que a F1 não se lembrava desde a introdução da tecnologia das unidades motrizes híbridas, em 2014: a impossibilidade de prever o que deverá acontecer na competição. Claro, por sua competência a Mercedes conquistou os sete títulos de pilotos e os sete de construtores nesse período.

Veja a classificação e o calendário da temporada

Já em 2021, cada vez que os elementos parecem favorecer o conjunto chassi-unidade motriz de um ou outro piloto eis que o desenvolvimento dos treinos e da corrida contraria tudo. Com toda certeza surpreende até Max e Hamilton, bem como seus engenheiros, liderados por Gianpiero Lambiase e Peter Bonnington.

É por isso que nas entrevistas das quintas-feiras, antes de os carros irem para as pistas, Max e Hamilton no máximo mencionam o que faz mais sentido esperar do fim de semana, “mas sem certeza alguma de que será mesmo assim”.

Contra as tendências

Veja estes exemplos. Depois da pré-temporada mais curta da F1, este ano, de apenas três dias no Circuito de Sakhir, no Bahrein, emergiu com força a velocidade, o equilíbrio e a confiabilidade do equipamento da Red Bull-Honda de Max. E as dificuldades da Mercedes com o W12. As mudanças nas regras da aerodinâmica atingiram em cheio o time da montadora alemã.

Mas o que vimos na primeira corrida do ano, no mesmo autódromo localizado no meio do deserto? A Mercedes vencer, com Hamilton. O grupo liderado por James Allison, então diretor técnico, atenuou o desequilíbrio do carro e James Vowles acertou em cheio na estratégia. Max ficou em segundo, contra todas as tendências.

Poderíamos ficar aqui abordando várias etapas do calendário com resultados distintos do esperado, mas vamos nos limitar ao da corrida de abertura do mundial e da última realizada, há pouco mais de uma semana, em Austin, nos Estados Unidos.

Verstappen comemora vitória inédita no GP dos EUA – Divulgação/Fórmula 1.com

Max venceu pela primeira vez no circuito em que a Mercedes ganhou cinco das seis edições na era híbrida, sendo que em quatro ocasiões com Hamilton. E não houve nenhum incidente que favorecesse o holandês. Simplesmente, na média, o modelo RB16B-Honda esteve poucos milésimos de segundo mais rápido que o W12.

Esse estado de coisas, a tão desejada elevada equivalência de performance entre Max e Hamilton e Red Bull-Honda e Mercedes, já fez com que a liderança do campeonato de pilotos mudasse quatro vezes de mãos entre ambos. Mais: desde o evento em Silverstone, dia 18 de julho, décimo do ano, um não abria mais de 8 pontos de vantagem para o outro, como é o caso agora.

A luta entre os dois times é igualmente árdua. Depois de 18 etapas, a Mercedes lidera com 460,5 pontos, diante de 437,5 da Red Bull-Honda. A menor pontuação de Sérgio Perez, companheiro de Max, em relação a Valtteri Bottas, de Hamilton, ajuda a explicar essa diferença. Bottas é o terceiro na classificação, com 180 pontos, enquanto Perez, quarto, soma 150.

Projeção, etapa a etapa

Vamos fazer o mesmo exercício que as duplas Max-Lambiase e Hamilton-Bonnington realizam às quintas-feiras, antes ainda de os treinos livres começarem, e desenhar o cenário das cinco etapas finais do campeonato? E tal qual esses profissionais talentosos e de sucesso nos limitarmos a sugerir o andamento mais provável para a competição?

Nos GPs do México, 18º, Brasil, 19º, Catar, 20º, e da Arábia Saudita, 21º, a Pirelli distribuirá os pneus C2, como duros, C3, médios, e C4, macios. Já no último, em Abu Dhabi, 22º, o C3, C4 e o C5, os mais macios da sua gama.

GP do México

O Circuito Hermanos Rodriguez, de 4.314 metros de extensão, 17 curvas (a corrida terá 71 voltas), se caracteriza por estar a 2.250 metros acima do nível do mar. A atmosfera mais rarefeita interfere diretamente no rendimento das unidades motrizes, mesmo com o seu motor de combustão interna (ICE), de 1,6 litro, V-6, sendo dotado de um conjunto turbina-compressor.

Autódromo Hermanos Rodríguez é palco do GP do México – Divulgação/Fórmula 1.com

Ao que parece, esse fator interveio diretamente para elevar a competitividade do carro de Max em 2019. E ficou a impressão de a Mercedes sentir mais os efeitos da altitude. A prova não foi disputada no ano passado por causa da pandemia provocada pelo coronavírus.

O holandês estabeleceu a pole position, com a dupla da Ferrari a seguir, Charles Leclerc e Sebastian Vettel. Hamilton não foi além do quarto tempo, 504 milésimos mais lento que Max, enquanto Bottas, do sexto.

Saiba como assistir aos treinos e à corrida do GP do México

Max, no entanto, foi punido com a perda de três posições no grid por desrespeito à bandeira amarela gerada pelo acidente de Bottas na tomada de tempo. E na largada Max e Hamilton tocaram rodas na curva 2, quando lutavam pelo terceiro lugar. Perderam várias posições. Max teve ainda um pneu furado ao tentar ultrapassar Bottas, jogando-o para último, 30 segundos atrás do penúltimo, Romain Grosjean, da Haas.

Mesmo assim, Max conseguiu receber a bandeirada em sexto. Hamilton recuperou as posições perdidas no toque com Max e venceu o GP do México.

Cenário mais esperado para a corrida, domingo: se a maior adaptação da unidade motriz Honda à altitude se confirmar este ano também, faz sentido Max dispor de um conjunto alguns milésimos de segundo mais rápido que o de Hamilton. Se não for o caso, o traçado curto, pouco seletivo e de asfalto irregular tende a igualar o desempenho de Red Bull-Honda e Mercedes.

GP São Paulo, dia 14

A exemplo do Circuito Hermanos Rodriguez, Interlagos, com seus 4.309 metros, 15 curvas (a corrida de 71 voltas), encontra-se mais alto em relação à maioria das demais pistas, 760 metros acima do mar. Não foi como na Cidade do México, mas também no Brasil Max e a Red Bull-Honda apresentaram, em 2019, performance melhor que a da dupla Hamilton-Mercedes. De novo a maior competitividade do carro de Max foi associada à menor densidade do ar.

Largada do GP de São Paulo de 2019 – Divulgação/Fórmula 1.com

O holandês largou na pole, com Hamilton em terceiro, 191 milésimos mais lento. Sebastian Vettel, da Ferrari, era o segundo no grid. Hamilton o ultrapassou ainda no S do Senna depois da largada para posicionar-se em segundo, atrás de Max. Na 20ª volta, a Mercedes tentou o undercut e chamou Hamilton.

A Red Bull reagiu e levou Max para a troca de pneus na volta seguinte. Não só: estabeleceu o recorde de eficiência na operação de substituir os quatro pneus, com impressionante 1 segundo e 82 milésimos, melhorando a marca registrada pela própria equipe, na Alemanha, com 1s88.

Mas ao sair dos boxes Max encontrou Robert Kubica, da Williams-Mercedes, e perdeu tempo. Hamilton assumiu a liderança. Como dispunha de carro mais rápido, Max ultrapassou Hamilton na freada do S do Senna. Repetiria a manobra no mesmo local depois do safety car, necessário para o resgate tirar a Mercedes de Bottas, com pane hidráulica, de local perigoso.

Max venceu com Hamilton somente em sétimo por tocar em Alexander Albon, o outro piloto da Red Bull-Honda, e ser punido. Tentava o segundo lugar.

Cenário mais esperado: de novo uma pequena vantagem técnica para a Red Bull-Honda de Max, diante do histórico apresentado, ou seja, a Honda responder com alguns cavalos a mais de potência que a Mercedes.

GP do Catar, dia 21

É o terceiro país do Oriente Médio a receber a F1. Faz a sua estreia. O Circuito de Losail acha-se ao norte da área da capital Doha, com 5.380 metros, 16 curvas (GP terá 57 voltas), e recebe o Mundial de MotoGP desde 2004, sendo que em 2008 promoveu a primeira prova noturna do campeonato, como será com a F1, agora.

É um traçado de média velocidade, mas de terço final bem rápido, com a famosa sequência de curvas 12, 13 e 14, de disposição semelhante ao da curva 8 do Circuito de Istambul, mas para a direita em vez de esquerda.

Curiosamente, o GP do Catar não está no calendário da F1 de 2022. Volta em 2023, para um contrato de dez anos e em um autódromo a ser construído especialmente para o evento.

Em relação à edição deste ano, por conta de as equipes não terem referência prática da pista, apenas informações passadas pela organização do GP, a fim de definir a relação de marchas e o acerto básico, mecânico e aerodinâmico, a velocidade de os pilotos e engenheiros encontrarem logo o caminho para o melhor ajuste do chassi terá grande importância no resultado final.

Ao longo do ano vimos a Mercedes definir antes da Red Bull-Honda esse caminho para melhor ajustar o carro às pistas. Sendo que no caso do Catar não existem referências também dos pneus, como se comportam. Tudo terá de ser descoberto ali na hora e reagir com eficiência súbita.

Cenário mais provável: em outras ocasiões em que esse exame esteve à prova, a Mercedes se saiu melhor.

 GP da Arábia Saudita, dia 5 de dezembro

É a quarta nação do Oriente Médio a ser inserida do campeonato, depois de Bahrein, Abu Dhabi e Catar, também faz a sua estreia na F1 e com mais uma corrida noturna.

Se você observar o desenho do traçado do Circuito de Jeddah ficará impressionado, por ser do tipo pé em baixo quase o tempo todo, com 6.174 metros de extensão, 27 curvas (GP terá 50 voltas), apesar de não permanente. E isso dá o tom da corrida. Max tem uma unidade motriz nova instalada no GP da Rússia, 15º, dia 26 de setembro, enquanto Hamilton, na prova seguinte, na Turquia, 10 de outubro.

A Red Bull-Honda substituiu tudo, o motor de combustão interna (ICE) e os demais componentes da unidade motriz, como os dois sistemas de recuperação de energia, cinética (MGU-K) e térmica (MGU-H). Já a Mercedes, apenas o ICE de Hamilton.

Se eles se apresentarem para o GP da Arábia Saudita com o que têm hoje no carro, então a unidade motriz de Max estará na sua sexta corrida e Hamilton, quinta. Mas com um agravante sério: o Circuito de Jeddah é o mais exigente para a unidade motriz dentre os 22 do calendário.

É provável que nas etapas de São Paulo, Catar ou mesmo Arábia Saudita a Red Bull-Honda e a Mercedes instalem novas unidades em seus carros. Com isso, Max e Hamilton vão perder posições no grid. Não há como competir no Circuito de Jeddah, com um segmento de quase três quilômetros de aceleração máxima, tendo uma unidade motriz no fim da vida útil.

Veja quantos fatores estão interferindo no que podemos esperar do evento de estreia da Arábia Saudita na F1. Em traçados de altíssima velocidade, como o de Monza, a Mercedes esteve na frente da Red Bull-Honda.

Circuito de Jeddah estreia em 2021 – Divulgação/Fórmula 1.com

Na edição deste ano, Bottas foi o pole, com um tempo 411 milésimos melhor que o de Max, terceiro. Hamilton foi o segundo. O finlandês venceu a sprint race, no sábado, com Max em segundo. Hamilton largou mal e perdeu várias posições. Terminou em quinto.

Na corrida principal, no domingo, Bottas largou lá atrás, por causa da substituição da unidade motriz, e Hamilton se envolveu no acidente com Max, gerando o abandono de ambos. Mas a Mercedes dispôs do conjunto mais veloz em Monza, haja vista que a McLaren-Mercedes estabeleceu uma dobradinha, com Daniel Ricciardo em primeiro e Lando Norris, segundo.

Cenário mais provável para o GP da Arábia Saudita: sem levar em consideração a questão das condições da unidade motriz, mas somente a melhor aceitação da Mercedes nesse tipo de traçado e a maior rapidez da escuderia alemã na definição do melhor acerto básico do carro, faz sentido esperarmos leve vantagem de Hamilton na disputa com Max. 

Mas se há uma corrida de resultado completamente aberto é essa, como temos visto todo ano no GP do Azerbaijão, cujo traçado registra alguma similaridade com o saudita. Há sempre surpresas.

Abu Dhabi, dia 12 de dezembro

Os 20 pilotos e as 10 equipes da F1 não vão estar diante de um circuito completamente novo, mas quase. Os organizadores do GP aceitaram a antiga sugestão de profissionais da F1 para rever alguns pontos do traçado do Circuito Yas Marina, usado desde 2009 e caracterizado pela dificuldade de os pilotos realizarem ultrapassagens.

O traçado original de 5.554 metros, 21 curvas, deu lugar a um de 5.281 metros, 16 curvas (GP terá 58 voltas). Ele foi simplificado, podemos dizer. No papel, parece mesmo dificultar menos as ultrapassagens.

No circuito anterior, no ano passado, a Red Bull-Honda surpreendeu a todos ao obter com Max a pole position, deixando Bottas em segundo e Hamilton, terceiro, no grid. Mas foi principalmente no domingo que seu desempenho foi além do esperado, ao receber a bandeirada em primeiro, 15 segundos à frente de Bottas e 18 de Hamilton, segundo e terceiro, em uma corrida sem intercorrências maiores.

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A situação agora é outra. As restrições aerodinâmicas impostas pelo regulamento deste ano permitiram a Red Bull, junto do avanço da Honda, desenvolver um conjunto chassi-unidade motriz capaz de desafiar os supercampeões Hamilton-Mercedes na luta pelo título.

Mas não é possível imaginarmos que Max venha a dispor de um carro bem mais eficiente que o da Mercedes, em Abu Dhabi, como foi no ano passado.

Cenário mais provável: hoje, como hoje, igualdade de condições entre Red Bull-Honda e Mercedes. Consideremos, por favor, que a Pirelli levará para o novo Circuito Yas Marina os seus pneus mais macios, C3, C4 e C5, também uma variável importante.

Em Mônaco, com eles, a Red Bull-Honda foi bem melhor, enquanto na Rússia a Mercedes se mostrou mais rápida.

Importante: destaco o que escrevi “cenário mais provável” e tendo como base o que já vimos de Max-Red Bull-Honda e Hamilton-Mercedes nesses circuitos ou nos de características parecidas. Tenha ainda em mente que os fatores mencionados, bem como outros que venham a surgir, podem interferir nos resultados e consequentemente na definição do título.

A torcida da maioria dos fãs da F1 é uma só: que essa luta histórica se estenda até o GP de Abu Dhabi, 22º e último do campeonato. Bom GP do México para todos nós. Mas nos encontraremos aqui antes dos treinos livres, na sexta-feira. 

Abraços.

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